Tag: açoriamento

0 comments

Região inundada por desastre ambiental no Pantanal do MS, equivale a quase quatro vezes o município de SP, segundo a Embrapa.

Rompimentos do Rio Taquari já inundaram 600 mil hectares de terra, segundo a Embrapa.
A margem esquerda do rio na região, conhecida como Nhecolândia, também já foi atingida.

Navegando pelo leito principal do rio Taquari, é possível ver uma curva que seguiria pelo curso normal em uma direção, mas acabou tomando um novo rumo, rompeu a margem e invadiu fazendas. É o mais recente arrombamento que o Rio Taquari sofreu nas últimas décadas.

A pastagem, bem no ponto onde a boca estourou, é da família do produtor rural Daniel Marinho. Dos 15 mil hectares, 10% ficou debaixo d’água. “Na hora em que a água vai para o campo ela vai perdendo velocidade. Dessa maneira, ela vai parando no meio do capim e aí é como se fosse uma mangueira furada em um jardim: a água para e vai inundando uma área gigantesca”, afirma Marinho.

Daniel coordena a ONG SOS Taquari, que reúne produtores rurais, pescadores e barqueiros que buscam uma solução para amenizar os prejuízos com as mudanças no rio. “O Pantanal está morrendo, está acabando tudo – tanto o pantaneiro como o Pantanal também”, lamenta Daniel.

Se por um lado tem pessoas sofrendo com os alagamentos, quem depende do leito principal do Rio Taquari para sobreviver, agora enfrenta a seca. Onde era um corixo, como os moradores chamam os canais que recebem água do rio, atualmente não tem nada de água. Os pequenos agricultores não conseguem mais produzir.

O Taquari, que mudou a vida de muitas pessoas, também sofreu alterações na sua foz. Como não tem mais uma calha só, encontra diferentes caminhos para chegar ao Rio Paraguai. A foz original é pelo Porto da Manga. Essa foz ficou seca por muito tempo – no ano passado a água até voltou, mas com bem pouco volume.

Seu Armando Lacerda é o dono da área por onde passa o corixo. Na beira do Rio Paraguai, ele e a mulher, dona Marli, abriram uma pousada para explorar o turismo ecológico. Foi o jeito de continuar por ali. A fazenda de 30 mil hectares está desativada. “Esta foi a maneira de continuar com parte das nossas atividades”, afirma Armando.

No local, o lugar onde há mata nativa na margem e aves, também foram encontrados muitos peixes. Os cardumes e a vegetação exuberante no fim de rio são uma exceção. Na imensidão de alagamentos permanentes provocados pelos arrombamentos, a vida aquática é escassa.

A chefe da Embrapa Pantanal, a bióloga Emiko Resende, explica por que o Pantanal depende do ambiente de enchente e depois de seca.  “Quando vem a seca, parte da vegetação morre e serve de adubo para a vegetação terrestre que vem. Quando vem a cheia, a vegetação terrestre é alagada, não suporta inundação e vira matéria orgânica que os peixes comem e outros insetos. Isso refaz a cada ano a cadeia alimentar”, conta.

“Quando isso não acontece e enche o ano inteiro, não tem essa renovação. Então, muito embora tenha muita água, tem pouco alimento dentro dessa água. Aí passa a funcionar como se fosse um enorme deserto aquático”, completa Emiko, que trabalha há 25 anos no Rio Taquari e considera muito grave o que está acontecendo.

O sobrinho do escritor Manoel de Barros, Luciano de Barros, sofre só de pensar em um dia ter que abandonar sua fazenda na Nhecolândia, perto do Rio Taquari. “O que é o Pantanal para nós? É a nossa vida”, diz ele.

Fonte: Globo Rural

ae